Hesitei na soleira da porta com o guarda chuva na mão como sempre faço, o céu estava cinza e o dia meio escuro, eu já podia até ouvir aquele estrondo no céu que precede a chuva e aquele cheirinho de terra molhada. Fechei os olhos e inalei fundo, acabei pegando o guarda chuva como sempre faço. Desci a ladeira da minha rua rindo de mim mesma como uma tola por causa das repetições. Meu cabelo frisou o que era uma confirmação de que iria chover, apesar disso estava abafado e mesmo com o vento frio batendo nos meus braços magrelos eu tirei o suéter.
Meu turno escolar era perfeito, não importava ter que acordar cedo, eu fazia de bom grado, a rua silenciosa não me julgava quando eu corria para a escola desembolando os fones de ouvido ou arrumando as meias debaixo do jeans, muito menos os pedestres se assustavam quando meu joelho dobrava para trás e parecia que eu ia cair, só doía um pouco, mas era estranho para quem não é acostumado. Na rua principal já tinha mais gente acordada, na padaria e no ponto de ônibus. Sempre hesitante eu chamo minha única amiga para ir para a escola comigo, na verdade eu gostaria mesmo de ir em frente e não parar, sozinha eu fico melhor, principalmente com a minha cabeça silenciada pela musica alta que esta tocando nos fones de ouvido, eu não preciso puxar assunto e nem prestar atenção ao que ela disser e muito menos eu ficaria matutando sobre o que ela acha do eu estou dizendo. Eu sempre tenho medo de que as pessoas me julguem e por mais que me machuque eu prefiro ficar invisível, se eu começo a falar mesmo que com um amigo eu tenho medo de ser julgada ou ignorada, eu não sou interessante sou é esquisitinha. Queria só ir em frente contando apenas com os amigos dos quais eu não tenho medo, a musica tocando e o livro balançando na mochila junto com minhas outras coisas, quando eu chegar na escola só preciso fazer minha tarefas ligar a musica quando acabar, mante-la num volume rasurável e ler até a aula termina. Se estou sozinha e minha mente esta minimamente focada em outra coisa eu esqueço que tem gente olhado, nem ligo para isso, se estão ou não olhando eu tropeçando ou se importa ou não se estou esbarrando em alguém ou na parede, murmurando comigo, cantando baixinho e errando a letra da musica, toda desafinada, brigando com os personagens dos livros e rindo sozinha.
Quando eu estou com alguém eu fico desatenta e desnorteada, quando alguém se mexe eu sinto que essa pessoa estivesse puxando o gatilho de uma pistola para mim, ai eu gaguejo erro as palavres e esqueço como se fala, fico boba e sem graça, pelo simples fato de estar com um amigo e quando eu tento falar com um desconhecido eu só quero sair correndo e me esconder.
Quando eu estou com raiva as coisas são diferentes eu me sinto confiante e imbatível, sou de poucas palavras e bem diretas, não tremo, tropeço ou gaguejo, mas não posso viver com raiva e nem isolada.
Eu sou tímida e estou sempre querendo fugir ai eu misturo ficção com realidade e o resultado é magico e desagradável pois não é real no fim das contas.
Quando eu vejo pela janela da sala de aula que lá fora esta tudo cinza eu fico empolgada, nunca da para ouvir o som da chuva e mesmo não sentando na janela é para onde eu fico olhado enquanto estou lá, tenho sempre que me esforçar um pouco mais que os outros alunos, pois sou desligada e não consigo mante o foco, as vezes eu esqueço o que o professor acabou de dizer, uma palavra ou duas eu lembro então eu tenho que dar meu jeito e fazer sem explicação, isso porque eu não conseguiria me esforçar mais para prestar atenção, e não quero, quando o dia emoldurado pela janela da sala esta chuvoso é lindo, nevoeiro é magico mesmo todo branco, brilhante e ensolarado dói a vista, mas eu não consigo desviar o olhar nunca.
O sinal toca e eu já tenho tudo guardado, a professora libera aos poucos então eu deixo para colocar a mochila nos ombros no corredor, no andar da minha classe fica a diretoria, a coordenação e as turmas do terceiro ano que saem mais tarde, então tem pouca gente e ninguém nota eu saindo, quando levanto o jeans e acerto a camiseta debaixo da mochila porque fica subindo, e antes que a professora libere outro aluno eu já corri para o vidro da janela da coordenação para ver o meu cabelo e disso eu não tenho vergonha pois tem rapazes acertando o boné e meninas retocando a maquiagem no reflexo também.
Quando eu chego no primeiro andar minha amiga esta do meu lado, ela nunca lembra do guarda chuva e é alta de mais para irmos juntas no meu, como ela mora perto nem liga, um lado da calçada da subida do colégio esta coberto de mato, temos que andar na rua e por causa da chuva aquele trecho fica lamacento, mas temos que passar por ali pois no asfalto carros e motos vão e vêem, tentamos a sorte para sair com o minimo de estrago possível escorrego mas fico de pé.
Depois que nos separamos, minha amiga e eu, só há um pequeno trecho até eu voltar para minha rua e sair da principal, não tem ninguém na rua por causa da chuva eu me certifico e canto alto se vergonha, a chuva abafando minha voz e é claro que eu não canto tão alto assim. Arrisco uns passos com cautela para nem cair e nem espirrar água nos meus jeans, a coreografia depende da musica e é sempre basicamente cabeça e mão, alguns giros e reboladinha discretas e mal passam de mexidinha de quadril.
Antigamente eu ficava sozinha em casa até minha irmã caçula chegar em casa, mas meu pai esta de licença do trabalho, antes eu passava pela casa da minha avó na frente do quintal via se tinha alguém e voltava a dançar com menos cuidado, agora eu deixo para fazer isso no meu quarto, penduro o guarda chuva na varanda, aceno para o meu pai na sala de estar e mal entro no quarto e já volto a dançar, pulo, giro, rebolo, escorrego, caio ou quase caio, com um sorriso no rosto, brinco com o meu cabelo na frente do espelho e antes que o celular descarregue eu desligo a musica e caio na real com uma pequena satisfação.
Eu amo chuva, mesmo ter que me esquivar das ondas d'água que os carros passando na rua jogam, e meu cabelo armado eu amo estar de baixo do guarda chuva com as gotas d'água caindo ao meu redor sem me molhar é quase magico.